Camboja vale a pena? O que vimos em Phnom Penh e Siem Reap
Tem viagem que a gente faz pelos lugares bonitos. E tem viagem que muda o jeito como a gente olha para o mundo. O Camboja foi a segunda. Passamos oito dias por lá em outubro de 2018, entre Phnom Penh e Siem Reap, e até hoje é um dos países que mais mexeu com a gente.
Esse post não é um roteiro cheio de dicas de restaurante. É o que vimos, o que sentimos e por que achamos que todo mundo deveria conhecer o Camboja pelo menos uma vez na vida.
Sumário
Chegando de ônibus do Vietnã
Chegamos com a impressão de que seria quase a mesma sensação do Vietnã, e não nos enganamos tanto. Viemos de ônibus, umas 6 horas de viagem, e a primeira diferença que notamos foi a escrita, que muda completamente quando você cruza a fronteira.
Mas logo apareceu outra diferença: a recepção. Uma amiga que também tinha passado pelo Vietnã comentou que sentiu uma vibe mais animada no Camboja, e foi exatamente o que a gente sentiu. As pessoas sorriem mais, querem te receber bem. Depois das 6 horas de ônibus, estávamos na chuva, com as malas, tentando achar o Airbnb, quando um senhor viu que estávamos perdidos e simplesmente quis ajudar, mostrando o caminho. Ele nem tinha nada a ver com a nossa hospedagem. Era só alguém dali que nos viu mais perdidos que caroço de azeitona em boca de banguela.
No caminho, fui pesquisando sobre o país no celular. E foi aí que levei o primeiro choque da viagem.
O que ninguém conta antes de você ir: o Khmer Vermelho
Eu nunca tinha ouvido falar do Khmer Vermelho (Khmer Rouge, em francês). Entre abril de 1975 e janeiro de 1979, esse regime, liderado por Pol Pot, esvaziou as cidades, mandou a população inteira para o trabalho forçado no campo, aboliu a propriedade privada e perseguiu qualquer pessoa vista como ameaça: professores, médicos, gente que usava óculos. As estimativas falam em algo entre 1,5 e 2 milhões de mortos, numa população de cerca de 8 milhões de pessoas.
E o mais revoltante: Pol Pot nunca foi julgado. Ele morreu em 1998, aos 72 anos, de velho, como se nada tivesse acontecido.
Isso foi há menos de 50 anos. Ainda tem sobrevivente vivo. Enquanto tudo isso acontecia, muita gente da nossa geração estava nascendo, ou os nossos pais estavam na escola, sabe? Olha que loucura como o mundo é.
Phnom Penh e o Choeung Ek: a visita mais difícil (e mais importante) da viagem
Em Phnom Penh, a capital, o dia 5 de outubro foi dedicado a essa memória. Fomos ao Choeung Ek, um dos chamados Killing Fields, os campos onde milhares de pessoas foram executadas e enterradas em valas comuns. No centro dele fica uma estupa memorial com milhares de crânios das vítimas. Você anda com um audioguia, ouvindo histórias de quem passou por ali, e é impossível não se emocionar.
Quem tiver tempo deve visitar também o Museu do Genocídio Tuol Sleng, no centro da cidade. Ele funciona onde antes era uma escola, transformada na prisão S-21. Ali, milhares de pessoas foram presas e torturadas antes de serem levadas para os campos de execução, como o Choeung Ek. A maioria nunca saiu de lá viva. Os corredores, as celas e as fotos de quem passou por ali continuam lá, para ninguém esquecer.
Não é um passeio leve. A gente saiu do Choeung Ek em silêncio. Mas eu acho muito, muito importante. Quando você sente na pele uma parte tão triste da história da humanidade, você entende que é literalmente um grão de areia nesse mundo.
Uma ferida que ainda não fechou
O que mais me marcou é que essa história não ficou no passado. Quando o Khmer Vermelho acabou com a propriedade privada, destruiu também os registros de quem era dono de cada terra. Depois de 1979, as famílias foram morando onde dava, sem documento nenhum.
Hoje, o Camboja ainda é um país muito pobre, e grandes áreas de terra foram concedidas a empresas, cambojanas e estrangeiras. Imagina você estar em casa, lavando a louça, vivendo a sua vida, e do nada alguém chegar e dizer que aquilo não é mais seu. Que você precisa sair e perdeu tudo. Uma organização de direitos humanos de lá, a LICADHO, contou mais de 170 mil famílias envolvidas em disputas de terra com o governo entre 2000 e 2023. São mais de 700 mil pessoas.
Siem Reap e os templos de Angkor
De Phnom Penh seguimos para Siem Reap, a cidade que é a porta de entrada para os templos de Angkor. E aqui o Camboja mostra o outro lado: uma das coisas mais impressionantes que a humanidade já construiu.
Visitamos todos os templos principais. Alugamos uma moto e achamos muito tranquilo rodar por lá: o trânsito entre os templos é calmo e a estrada é boa. Tem macaco para todo lado, então fique de olho nas suas coisas. Se preferir não pilotar, dá para fazer o circuito de tuk tuk. Na nossa viagem, em 2018, pagamos 15 dólares por um tuk tuk que nos levava de templo em templo e nos deixava onde quiséssemos na volta. O ingresso para um dia em Angkor custava 37 dólares. Confira os valores atualizados antes de ir, porque eles mudam.
Um dos templos mais famosos é o Ta Prohm, aquele em que as raízes enormes das árvores abraçam as pedras. Foi lá que gravaram cenas do filme Tomb Raider, de 2001, com a Angelina Jolie. E ela também saiu impactada do Camboja, tanto que, no ano seguinte, adotou o filho Maddox, que nasceu lá.
Eu entendo. Não no mesmo nível, claro, mas o impacto que senti foi tão forte que tenho uma tatuagem inspirada justamente no Ta Prohm: a raiz da árvore descendo pelo templo, que no desenho virou a pata de um elefante. Ela me lembra do que aprendi ali: todo mundo tem problema, todo mundo tem solução, e a gente precisa ser mais gentil uns com os outros.
Dicas práticas para o Camboja
Dinheiro: quase tudo é cobrado em dólar americano. Você pode pagar em dólar, mas o troco costuma vir misturado com riel cambojano (KHR), a moeda oficial do país, porque eles só usam cédulas de dólar, não moedas. Na nossa viagem, 1 dólar valia cerca de 4.000 riel, e nas casas de câmbio dava para conseguir 4.100. Vale olhar a cotação do dia antes de trocar.
Custos: comida, transporte e compras são baratos. O que pesa no orçamento são os templos. Viajamos com orçamento apertado, então comemos em lugares simples e não temos um restaurante específico para indicar, mas comemos bem gastando pouco.
Como se locomover: nas cidades, andamos a pé ou de Grab, o aplicativo que funciona como o Uber no Sudeste Asiático. A travessia de rua lembra a de Hanói e Ho Chi Minh: você simplesmente vai, num ritmo constante, que as motos desviam. E, diferente do Vietnã, por lá as pessoas usam capacete de verdade.
Internet: uma curiosidade que me marcou. Mesmo nas barracas mais humildes, em rua de terra, cheia de poeira, todo lugar tinha Wi-Fi. Achei incrível.
Se uma amiga fosse amanhã, eu diria isso
Pesquise sobre a história do país antes de ir. E não deixe de visitar o Choeung Ek e o Tuol Sleng, de preferência no mesmo dia. Eu sei que não é o passeio mais leve da viagem, mas é dos mais importantes. Conhecer essa parte da história é o que dá sentido a todo o resto.
A gente acredita que viajar torna o mundo melhor. É conhecendo outras culturas e outras histórias que a gente aprende a ter mais tolerância uns com os outros. E é justamente a falta de tolerância que leva a situações como a que o Camboja viveu.
Depois do Camboja, seguimos para Bangkok, na Tailândia. Mas essa é história para outro post.
E você, já foi ou tem vontade de ir ao Camboja? Conta pra gente nos comentários.