Por que a gente escolheu o Canadá (quando o plano era a Austrália)

Rapha de máscara no aeroporto de Vancouver segurando a bolsa de transporte da gata Sarah, na chegada ao Canadá em 2021

Toda vez que alguém descobre que a gente mora em Vancouver, vem a pergunta: “Mas por que o Canadá?”. E a resposta sincera é que o Canadá nem era o plano. O plano era a Austrália. Quem mudou o nosso destino foi uma gatinha de quatro patas chamada Sarah.

Neste post a gente conta a história toda: por que saímos do Brasil, como a Sarah decidiu o país, o caminho dos vistos (estudante, trabalho e residência permanente) e como foram os primeiros meses por aqui, chegando em fevereiro de 2021, no meio do inverno e da pandemia.

Por que a gente saiu do Brasil

A gente decidiu sair do Brasil por causa da violência. Conhecemos várias pessoas que foram assaltadas descendo do Uber pra entrar no prédio, ali na própria calçada. É difícil até descrever essa sensação de nunca estar segura: não dá pra falar no celular na rua, não dá pra usar joia, você vive olhando pra trás.

E tem aquela coisa meio esquizofrênica de pagar muito imposto e sentir que nada funciona. É como pagar a conta da internet todo mês e não ter internet em casa. Muita gente sente que precisa ter plano de saúde e, mesmo assim, às vezes ainda paga o médico por fora, porque nem o plano funciona direito. No fim, você paga três vezes pela mesma coisa.

Saímos com a certeza de que não queríamos voltar. Só não sabíamos pra onde ir.

O plano era a Austrália

Antes de decidir, fizemos uma viagem de um ano pelo mundo. Nessa viagem passamos um mês na Austrália e nos identificamos muito: o idioma, o clima, as praias. Voltamos pro Brasil certos de que o próximo endereço seria lá.

E aí a Sarah decidiu por nós

Quando começamos a ver como levar a Sarah, nossa gatinha, a coisa ficou séria. Pra Austrália, o custo estimado na época era de uns 22 mil dólares (dezenas de milhares de reais), com quarentena obrigatória e uma burocracia enorme. Quando ligamos pra uma agência especializada em transporte de pets, ouvimos que, em mais de 20 anos de experiência, eles só tinham conseguido mandar quatro pets pra Austrália.

Na mesma ligação veio a outra informação: pro Canadá era muito mais tranquilo. Uns 3 mil reais, e ela ainda viajaria na cabine com a gente.

Ficou basicamente uma pergunta: ou a gente troca de destino, ou deixa a Sarah pra trás. E cá estamos nós, no Canadá. 🐱

Rapha de máscara no aeroporto de Vancouver segurando a bolsa de transporte da gata Sarah
Chegando em Vancouver com a Sarah na bolsa, em fevereiro de 2021

Confissão: eu nunca quis vir pro Canadá

Eu sempre achei o Canadá frio demais, e não estava a fim de passar frio. Também tinha a impressão de que o Estado se mete muito na sua vida, com aquele controle todo sobre bebida, por exemplo. E as festas! Aqui uma festa dura umas duas horas, e eu vinha de um lugar onde as pessoas chegam às duas da tarde e vão embora às cinco da manhã.

Mas no fim foi a melhor coisa que a gente fez. Mesmo sendo América do Norte, ainda é o mesmo continente, o fuso horário com o Brasil é tranquilo, a vida aqui é muito segura e a gente se identifica bastante com o jeito de viver daqui.

Como a gente veio: visto de estudante

O Adam já tinha o plano de fazer um MBA, então começamos pela escolha da faculdade e da província. Ele chegou a pensar em Alberta, mas eu vetei na hora: vi vídeos de gente abrindo a porta de casa e dando de cara com uma parede de neve. Sete meses de neve por ano, não, obrigada. 😅

Aí descobrimos a SFU (Simon Fraser University), em British Columbia, e o Adam aplicou pro MBA. Ele fez o GMAT duas vezes pra melhorar a pontuação, e quem já fez sabe: é uma prova bem difícil.

Eu também precisei estudar. Fui fazer o TOEFL, o teste de inglês, e na primeira vez tirei 86. As faculdades que a gente queria pediam pelo menos 90, e não tem arredondamento: abaixo de 90, não deu. Meu inglês era meio capenga, e a gente estava sem trabalhar, vivendo do dinheiro que tinha guardado. Então estudei sozinha, com vídeo na internet e pedindo pra amigos treinarem conversação comigo. Na segunda tentativa, tirei 99.

Com isso fiz minha pós-graduação em Marketing Management na Langara College, em Vancouver. Viemos os dois com visto de estudante.

O que é o PGWP

O grande motivo pra escolher esse caminho foi o PGWP (Post-Graduation Work Permit). É uma permissão de trabalho aberta que o Canadá dá pra quem se forma em um curso elegível aqui. “Aberta” quer dizer que você pode trabalhar pra qualquer empresa, em qualquer área e em qualquer lugar do país.

A duração depende do tamanho do curso, até no máximo 3 anos. Cursos com menos de 8 meses não dão direito. E é justamente essa experiência de trabalho no Canadá que conta muito depois, na hora de pedir a residência permanente.

Atenção: as regras mudaram bastante desde que a gente veio. Desde novembro de 2024, por exemplo, cursos de college (que não são graduação, mestrado ou doutorado em universidade) só dão direito ao PGWP em algumas áreas, como saúde, tecnologia, educação e construção. Também passou a ser exigido teste de idioma pra pedir o PGWP. Antes de escolher o curso, confira no site oficial do governo se ele dá direito ao PGWP.

Do visto de trabalho à residência permanente (PR)

Depois de formados, pegamos o PGWP e fomos trabalhar. Depois de uns dois anos, aplicamos pra residência permanente, a famosa PR, pelo Express Entry.

O Express Entry é o sistema online que o governo usa pra selecionar quem vai receber a residência permanente nos programas federais. Funciona mais ou menos assim:

  • Você cria um perfil e recebe uma pontuação, chamada CRS, que leva em conta idade, escolaridade, inglês (ou francês), experiência de trabalho e outros fatores.
  • De tempos em tempos o governo faz sorteios (na verdade, rodadas de seleção) e convida quem está acima da nota de corte daquela rodada.
  • Quem já tem pelo menos um ano de trabalho qualificado no Canadá, como a gente com o PGWP, normalmente entra pela Canadian Experience Class.
  • Depois do convite, você tem 60 dias pra mandar a aplicação completa, com todos os documentos.

As notas de corte e as regras mudam com frequência, então vale acompanhar pelo site oficial do Express Entry.

E aqui vai um spoiler: a gente meio que fez a aplicação errada e só descobriu depois. Mas essa história merece um post só dela.

E a cidadania?

Hoje a gente já tem a PR, e se tudo der certo, ano que vem a gente consegue pedir a cidadania canadense. A regra é ter pelo menos 1.095 dias (3 anos) morando fisicamente no Canadá nos últimos 5 anos. O tempo que você passou aqui antes da PR, como estudante ou trabalhador, conta pela metade, até no máximo 365 dias. O governo tem uma explicação oficial de como contar esses dias.

Chegando em fevereiro de 2021

Adam e Rapha de máscara no avião, no voo da mudança para o Canadá
O voo da mudança, de máscara e com o coração na mão

A chegada foi tensa. De longe, a gente via muita história de golpe contra imigrante procurando casa, então estávamos morrendo de medo de fechar aluguel pela internet. Ao mesmo tempo, vínhamos com a Sarah e precisávamos de um lugar que aceitasse pet, onde não tivéssemos que ficar mudando, e ainda tinha a quarentena obrigatória da pandemia.

No fim deu muito certo. Como os aluguéis estavam em promoção por causa da pandemia, conseguimos um apartamento mobiliado pra fazer as duas semanas de quarentena com a Sarah. Assim que a quarentena acabou, mudamos pra um apartamento sem mobília no mesmo prédio. E ainda conseguimos um contrato de só seis meses, quando quase todos são de um ano. Isso deu tempo pra conhecer a região antes de decidir onde ficar de vez. Somos muito gratos por isso.

Rapha abraçada com a gata Sarah no apartamento da quarentena
A Sarah, a verdadeira responsável por a gente estar no Canadá

Os perrengues do começo

Tem aquele medo do básico: onde compra shampoo? Quanto custam as coisas? Eu estava acostumada a comprar cerveja no supermercado, e aqui bebida alcoólica é vendida em lojas próprias, as liquor stores. Entrei na primeira e era um monte de cerveja de que eu nunca tinha ouvido falar.

E uma que doeu no bolso: eu não sabia que aqui você paga um depósito em cada lata e garrafa e recebe o dinheiro de volta quando devolve as embalagens vazias, os famosos empties. Em British Columbia são 10 centavos por embalagem, e dá pra devolver nos depósitos da Return-It. Eu jogava todas as latinhas fora. Deixei de ganhar um bom dinheiro de volta!

E teve o trabalho, que era a minha maior preocupação, bem mais do que a do Adam. Chegar num país novo e não saber se vai conseguir trabalhar na sua área dá um frio na barriga que nenhum casaco resolve. Essa parte também merece um post só dela.

E o inverno a gente foi aprendendo a encarar com a roupa certa, na base da tentativa e erro.

E vocês vão morar aí pra sempre?

Todo mundo pergunta isso. E a resposta é: não sabemos. Na fase da vida em que a gente está, o Canadá faz muito sentido. Se um dia isso mudar, a gente conta aqui. 😉

Leia também: Todos os posts sobre a nossa vida no Canadá

E você, está pensando em vir pro Canadá ou já passou por algum desses perrengues? Conta pra gente nos comentários.

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